Abuso sexual: o que você precisa saber.
21 respostas diretas para dúvidas comuns de quem viveu, ou suspeita ter vivido, uma situação de abuso. Escritas por Isis dos Santos, psicóloga, CRP 24/06350. Atualizado em 2 de outubro de 2026.
Entendendo o abuso
O que é abuso sexual?
Abuso sexual é qualquer ato de cunho sexual feito sem o consentimento livre da outra pessoa: toques, beijos forçados, relação sexual, exposição a conteúdo sexual, fotos ou vídeos íntimos feitos ou divulgados sem autorização. Também inclui situações em que a pessoa não tinha condições de consentir, por estar dormindo, alcoolizada, sob efeito de drogas ou por ser criança ou adolescente.
Pode existir abuso sem violência física?
Sim. Ameaça, chantagem, pressão insistente, manipulação emocional ou o uso de uma relação de poder (chefe, professor, líder religioso, familiar) também podem configurar abuso. A ausência de marcas no corpo não diminui o que aconteceu.
O que é consentimento?
Consentimento é um sim dado com liberdade, consciência e vontade, que pode ser retirado a qualquer momento, inclusive no meio de uma relação. Silêncio, ausência de reação ou um sim conseguido por medo, insistência ou troca não contam como consentimento.
Dentro do casamento ou do namoro também pode haver estupro?
Pode. A lei brasileira não faz exceção para parceiros: forçar relação sexual mediante violência ou grave ameaça é estupro (Código Penal, art. 213), seja quem for o autor.
A Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006, art. 7º, III) inclui a violência sexual entre as formas de violência doméstica, como obrigar a mulher a manter relação que ela não deseja ou impedir que use método contraceptivo.
Eu não disse "não". Ainda assim foi abuso?
Pode ter sido. Muitas pessoas não conseguem dizer não por medo, choque ou porque o corpo paralisa. O que define o abuso é a ausência de consentimento livre, e a lei não exige que a pessoa tenha resistido ou recusado em voz alta.
Por que eu travei e não consegui reagir?
Diante de uma ameaça intensa, o corpo pode reagir com congelamento: a pessoa fica imóvel, sem voz, às vezes com a sensação de estar fora do próprio corpo. Essa é uma resposta automática do sistema nervoso, que acontece sem escolha consciente. Ter travado não significa ter concordado.
A culpa foi minha?
A responsabilidade pelo abuso é sempre de quem o cometeu. Roupa, bebida, horário, ter aceitado um convite, ter tido relação com a pessoa antes ou ter demorado a contar não transferem essa responsabilidade. A culpa que muitas vítimas sentem é comum e pode ser trabalhada na terapia.
Depois do abuso
Quais sinais podem aparecer depois de um abuso?
Cada pessoa reage de um jeito. Podem surgir medo, ansiedade, alterações no sono e no apetite, lembranças que invadem o pensamento, sobressaltos, vergonha, culpa, dificuldade de confiar nas pessoas, afastamento do próprio corpo e mudanças na vida sexual. Também é possível não sentir quase nada por um tempo. Nenhuma dessas reações é sinal de fraqueza.
É normal só entender que foi abuso anos depois?
É frequente. Muitas pessoas só reconhecem o que viveram anos mais tarde, ao ouvir outro relato, ao entrar numa relação nova ou ao começar a terapia. O tempo que você levou para nomear a situação não diminui o que aconteceu.
Um abuso na infância pode afetar a vida adulta?
Pode. Experiências de abuso na infância podem influenciar a forma de se relacionar, de colocar limites, de confiar e de viver a sexualidade na vida adulta. Esses efeitos variam de pessoa para pessoa, e compreendê-los costuma ser uma parte importante do processo terapêutico.
Como o abuso pode afetar a sexualidade e os relacionamentos?
Algumas pessoas passam a evitar o contato íntimo; outras sentem dor, falta de desejo, desconexão durante a relação ou dificuldade de dizer o que querem e o que não querem. Há também quem repita relações em que seus limites não são respeitados. Esses temas podem ser trabalhados com cuidado e no seu tempo, inclusive com o olhar da sexologia.
Como contar para alguém o que aconteceu?
Você decide se, quando e para quem contar. Pode ajudar escolher uma pessoa de confiança, um momento tranquilo, e começar pelo que você se sente à vontade para dizer. Contar não obriga você a tomar nenhuma decisão. Se não houver ninguém por perto, os serviços desta página e a terapia são espaços seguros para falar.
Ajuda agora
Acabou de acontecer. O que eu faço?
Se você estiver em perigo, ligue 190.
Procure atendimento de saúde o quanto antes, de preferência nas primeiras 72 horas. Pela Lei 12.845/2013, os hospitais do SUS devem oferecer atendimento integral e gratuito a quem sofreu violência sexual, incluindo a prevenção da gravidez e de infecções sexualmente transmissíveis, como o HIV.
Se você pensa em registrar ocorrência, evitar tomar banho ou trocar de roupa antes do atendimento ajuda a preservar provas. Ainda assim, o cuidado com a sua saúde vem primeiro.
Preciso registrar boletim de ocorrência para ser atendida no hospital?
Não. O atendimento de saúde não depende de boletim de ocorrência. Registrar a ocorrência é uma decisão sua e pode ser feita depois.
Onde posso pedir ajuda?
- 190: Polícia Militar, em situação de emergência.
- Ligue 180: Central de Atendimento à Mulher, gratuita e 24 horas. Orienta sobre direitos e serviços da sua cidade.
- Disque 100: denúncias de violações de direitos humanos, inclusive contra crianças e adolescentes.
- Delegacia de Defesa da Mulher, ou a delegacia mais próxima, para registrar ocorrência.
- CVV 188: apoio emocional gratuito e 24 horas, se você estiver pensando em se machucar.
Sou obrigada a denunciar?
Para uma mulher adulta, registrar boletim de ocorrência é uma decisão pessoal. Você não precisa ter denunciado para receber atendimento médico nem para fazer terapia.
Quando a vítima é criança ou adolescente, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) obriga a comunicação do caso ao Conselho Tutelar.
Terapia
A terapia pode ajudar depois de um abuso?
A terapia oferece um espaço seguro para compreender o que aconteceu, nomear sentimentos como culpa, medo e vergonha, e reconstruir aos poucos a relação com o próprio corpo, com os limites e com as outras pessoas. Cada processo tem o seu ritmo, e o trabalho é construído junto com você.
Vou precisar contar tudo logo nas primeiras sessões?
Não. Você escolhe o que falar e quando. Muitas vezes o processo começa pelo presente, pelo que está difícil hoje, e as lembranças mais doloridas são abordadas quando houver segurança para isso.
O atendimento online é seguro para falar de abuso?
O atendimento online segue o mesmo rigor ético e técnico do presencial (Resolução CFP nº 9/2024). Para se sentir mais à vontade, vale escolher um lugar reservado, usar fone de ouvido e combinar com a psicóloga o que fazer se a conexão cair ou se alguém entrar no ambiente.
O que eu contar fica em sigilo?
O sigilo é um dever ético da psicóloga, previsto no Código de Ética Profissional do Psicólogo. As exceções envolvem situações graves, como risco à vida ou violência contra criança ou adolescente, e mesmo nesses casos a informação compartilhada se limita ao estritamente necessário. Esses limites podem ser conversados com você logo no início.
Como é o primeiro contato?
Você envia uma mensagem pelo WhatsApp, tira suas dúvidas e combina um horário. Não é preciso explicar o que aconteceu na mensagem.
Se quiser conversar sobre isso, você não precisa estar sozinha.
Atendimento psicológico online, com sigilo profissional. Na primeira mensagem, você não precisa explicar o que aconteceu.